Revista Pittacos

Revista de Cultura e Humanidades

Elvis, Ray, Wonder, Michael e Caetano.

[Marshall Berman]

 [N.E.] As declarações abaixo de Marshall Berman, falecido a poucos dias, foram colhidas em 2001, em entrevista conduzida por Berenice Cavalcanti e José Eisenberg para o projeto Decantando a República, do qual também participava Heloísa Starling, e que foi traduzida por Viviane Luporini. Material da mesma entrevista originou para a Folha de São Paulo “RAP, o canto à beira do precipício” publicado no mesmo ano e que pode ser lido no site do jornal neste link. Ressaltamos que o material abaixo permanecia inédito.

Elvis Presley: Quando Elvis surgiu em meados dos anos 50, eu não gostei muito, achei muito simples e rudimentar. Por outro lado, eu gostava muito de alguns músicos negros que não soavam muito diferente dele, muitos cantores de blues que estavam cantando um som mais pesado, como Muddy Waters; eles não tinham vozes melódicas e faziam questão de soar simples. Quando Elvis surgiu, eu fui esnobe e de uma forma peculiar, do tipo “eu conheço os negros de quem Elvis roubou tudo isso”. Era fácil ouvi-los, havia muitas estações de rádio que tocavam suas músicas.

Ray Charles: Muita coisa criativa estava acontecendo enquanto eu crescia. Negros que haviam sido criados dentro da igreja estavam usando música religiosa de forma secular, cantando sobre a mulher que eles amavam da forma que eles haviam sido ensinados a cantar somente para Deus. Eles aprendiam a cantar temas bastante elevados e os reciclavam para cantar temas mundanos, ainda que idealizados. O que as pessoas chamam de rhythm and blues (R&B) e de soul surgiu assim. Muitas músicas nessa tradição são formas recicladas e transformadas da música gospel. Esta, por sua vez, estava passando por uma grande transformação porque era muito simples quando começou. Era a versão negra da música country, com alguns violões e harmonias básicas, com duas ou três partes. Durante os anos 50 e 60, a música gospel tornou-se muito mais complicada, com bandas grandes e guitarras elétricas. Mudou também porque você tinha músicos maravilhosos trabalhando com isso, e assim tornou-se muito mais rica. Sam Cook, por exemplo, era um maravilhoso cantor de blues que começou sua carreira aos oito anos de idade como um cantor de gospel. Ele começou a reciclar as músicas com as quais ele havia crescido num contexto completamente novo e secular. Meus pais não eram judeus ortodoxos, mas nós crescemos cercados por pessoas religiosas. A ambivalência sobre religião que transparece em R&B e na música soul é algo muito próximo do meu coração.

Steve Wonder: Ele tinha uma mãe religiosa e o pai era um policial mundano, secular, cínico,. A biografia dele passa pelo conflito entre estes dois tipos de sensibilidade. Pelo menos essa é a biografia que ele sempre divulgou. Eu tenho muito afinidade com Steve Wonder. Durante os anos 60, eu gastei uma quantidade razoável de energia organizando demonstrações contra a Guerra do Vietnã e eu tenho certeza que se tivessem feito então uma enquete entre os negros no showbiz, 95 por cento deles era contra a guerra, embora relativamente poucos estivessem dispostos a aparecer nas demonstrações que eram majoritariamente de brancos fazendo pronunciamentos eloquentes. Steve Wonder foi um dos poucos que fez isso. Ele era um adolescente naquela época e estava disposto a participar de demonstrações pela paz no Central Park e cantar aquelas canções incríveis. Aquele talvez tenha sido seu melhor período, como músicas como A place in the sun e sua versão de Blowin’ in the wind. Bob Dylan comentou certa vez que essa versão era muito melhor do qualquer outra que ele pudesse ter feito.

Michael Jackson: Ele criou músicas incríveis. Beat it é uma das grandes canções da música popular americana. Envolve todo tipo de fusão, incluindo o Van Halen tocando guitarra. Aquilo é espetacular!  Mais uma vez, envolve negros ouvindo música branca; nesse caso, ouvindo heavy metal e fazendo coisas interessantes com isso. Heavy metal sempre pareceu para mim uma regressão musical total. Posso até estar sendo injusto, mas eu sempre achei que essa música não me dizia nada, e que era apenas barulho. Hoje eu vejo que havia muitas pessoas talentosas fazendo heavy metal… o fato de eu lembrar daquela guitarra… Michael Jackson era um soprano puro nos seus trabalhos iniciais, como ABC, que foi uma das grandes músicas utópicas da década de 70. O fato é que visões utópicas nem sempre são categorizadas como tal. Uma das coisas que a crítica cultural precisa fazer melhor é separá-las, pois elas aparecem nos mais variados lugares, às vezes até mesmo no lixo comercial. Muitos produtos comerciais e propagandas imitam visões que transcendem seus propósitos originais. Eu acho que a cultura de massas é assim em geral e essa é uma das coisas interessantes sobre os tempos modernos, uma mistura de pessimismo com otimismo. Muitas canções populares fazem isso.

Caetano Veloso: Tenho certeza que alguém como Caetano Veloso poderia te dar um versão extremamente complexa deste tema da utopia, e em mais de vinte idiomas culturais diferentes. Minhas impressão dele é que ele sabe disso e tem processado essa informação de formas bastante complicadas. Acho que ele deve ter várias coisas em mente que ele poderá vir a usar daqui a 20 anos, quando ele descobrir como fazê-lo. Ele é uma das pessoas mais impressionantes da música popular brasileira. Mas o que é mais impressionante é o fato de ele estar aberto para tudo, um sentimento de que tudo pode se tornar parte dessa visão utópica.

Sam Cook – It’s All Right (musica)

Muddy Waters – After The Rain (album completo)

Steve Wonder – Blowin’ in the wind

Bob Dylan – Blowin’ in the wind

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Um comentário em “Elvis, Ray, Wonder, Michael e Caetano.

  1. Jefferson
    16/12/2013

    Heavy Metal música branca? oO

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