[Emma Mia]
Acabei de ler a formidável notícia de que algumas brasileiras estão fazendo fortuna no exterior, trabalhando em algo que é nada chique no Brasil: como babá. Como tenho vivido eu própria essa experiência, gostaria de relatar aos leitores as verdades e mitos dessa “mina de ouro” e quem sabe oferecer pistas para quem deseja se arriscar.
Começo pela melhor parte: sim, é fato, a oportunidade existe. Não que eu tenha visto ou recebido qualquer coisa na ordem dos quinze mil dólares da dona Zenaide, mas o trabalho de babá no exterior é, de longe, o melhor que já tive por aqui. Não é uma escada rápida para a fortuna, todavia. Durante o meu primeiro ano tive que passar vários meses construindo um portfólio de nanny até conseguir algo decente. Do desemprego até os primeiros lugares no site número um de buscas por nannies não foi um caminho suave. E mesmo quando meu perfil fazia sucesso online e eu era contatada quase diariamente, isso nem sempre se convertia em proposta de trabalho e menos ainda na sonhada remuneração alta. Ou seja, a oportunidade existe, mas também está amplamente aberta ao fracasso.
Para evitar essa rota, é preciso entender alguns conceitos básicos. O primeiro deles é que essas babás de sucesso não se parecem em nada com as mães pretas da senzala ou com as, ainda discriminadas, empregadas domésticas do Brasil. Não se parecem, porque não são. Ou seja, rigorosamente falando, nanny não é babá. Se foi o conceito de nanny que evoluiu ou o de babá que estagnou, é dilema que prefiro deixar para analistas sociais. O ponto aqui é que a receita do sucesso das nannies modernas é, exatamente, afastarem-se o máximo possível dos seus ancestrais na função. Posto que nanny não é babá, imagino que deva revelar o que elas são e a que vieram.
Confesso que me fiz essa mesma pergunta quando, depois de pedir aumento, fui sumariamente substituída por uma outra nanny tida como qualificada e, segundo tive que ouvir, simplesmente excepcional. Durante semanas amarguei novamente o desemprego e, para completar o quadro, a desqualificação. Com um pouco de pesquisa, entretanto, descobri que não existia, e não existe, pelo menos nessa parte do planeta, nenhuma qualificação específica para nannies; nenhuma universidade onde nannies são graduadas e nem algo que se possa dizer diploma de nanny. Ou seja, a ideia da nanny qualificada era, simplesmente, uma tolice. Doce inútil consolo, no entanto! Famílias continuariam a acreditar e procurar por nannies qualificadas e, pior, a pagar por elas muito mais do que pagariam a mim. Mas havia algo novo. Não era qualificação o que fazia uma nanny “qualificada”. O que era então? Que mistério fazia da minha concorrente uma profissional mais atraente do que eu, no mesmo posto e função? Sem resposta na teoria, convoquei a velha prática: me autodeclarei qualificada, e um passo à diante, altamente qualificada. Uma pesquisa minuciosa nos perfis de nannies mais acessados do site me muniu das palavras certas; um toque de sofisticação e esnobaria no recorte e cola, uma cláusula de barreira contra as famílias indesejadas e, claro, o aumento no preço dos serviços e lá estava: em algumas horas meu perfil explodia online como um dos mais acessados dentre mais de cem mil ofertantes: nascia uma nanny!
Para muitas famílias, contratar uma nanny se tornou um status que quem pode pagar para tê-lo, está disposto a pagar. Mas o que realmente fez inflacionar esse mercado é ainda um mistério. As evidências são de que a antiga babá doméstica evoluiu na direção de um profissional moderno, qualificado, excelentemente apresentável, preferivelmente de boa aparência, e que não comparece em entrevista senão num tailleur, com um currículo impecável a tiracolo, um discurso afinado por agenciadores e alguns truques práticos de como seduzir os pequenos e fascinar os pais com a imagem de uma Mary Poppins perfeita. Sim, a fantasia desempenha um papel fundamental em tudo isso. Certa vez fui entrevistada por uma família cuja pauta principal era saber o que eu fazia como nanny, que suas babás de baixo custo não faziam. Mas, nem tudo é truque de marketing ou fantasia de ostentação. O perfil de uma nanny competitiva pode ser altamente sofisticado. Elas são graduadas, ou pós-graduadas, bilíngues ou poliglotas e seu currículo pode incluir enfermagem pediátrica, educação e desenvolvimento infantil, primeiros socorros pediátrico, segurança alimentar e nutrição, além de ter que demonstrar criatividade lúdica, alguma inclinação para artes, conhecimento em matemática e fluência (ou quase fluência) em inglês ou na lingua relevante para os pais. Além disso, é desejável que tenha carteira de motorista internacional, apresente certificado de antecedentes criminais, mostre boas referências de prévios empregadores e, claro, tenha experiência em cuidar de crianças.
O dia-a-dia de uma nanny, no entanto, pode não ser assim tão charmoso. A carga horaria diária pode chegar a mais de dez horas. O trabalho em si consiste em gerenciar, integral or parcialmente, a agenda da criança – o que pode incluir absolutamente tudo, dependendo do quanto de tempo os pais estejam dispostos a gastar com seus anjinhos. O trabalho pode incluir marcar e/ou acompanhar a criança a médico e dentista, viabilizar a vida escolar (incluindo preparar, levar e buscar na escola), monitorar dever de casa, supervisionar recreação, acompanhar e monitorar atividades extraclasses (balé, instrumento musical, natação e outros), organizar e monitorar atividades conjuntas com outras crianças, fazer as compras pertinentes, montar o cardápio, preparar e supervisionar refeições, banho, etc., e, acima de tudo, garantir a completa e absoluta segurança da criança. Na verdade, trata-se de um trabalho de altíssima responsabilidade que, em países como a Inglaterra, por exemplo, é rigorosamente fiscalizado pelo governo. Em suma, ou eu muito me engano, ou os pais modernos e neuróticos que tenho visto, em nenhuma hipótese entregariam seus tesouros às amas escravas, adoráveis sem dúvida, mas que, digamos, tinham lá suas diferenças com os patrões.
Quanto à questão levantada no artigo de que o salário de uma nanny brasileira nos EUA pode chegar ao dobro de um MBA recém-formado pela Universidade de Columbia, eu diria que faz algum sentido. Seria uma quimera pensar que qualquer um pode ficar rico fazendo isso – em tempos de crise apenas famílias abastadas têm condições de pagar salários inflacionados pela vaidade – mas se alguém com menos sorte que Zenaide Muneton sonha descolar um bilhete premiado limpando bumbum de bebê gringo, tem que emplacar como babá internacional; e isso pode acabar sendo nem mais fácil, nem mais barato do que um MBA em Columbia.