Revista Pittacos

Revista de Cultura e Humanidades

Uma Curta Temporada em uma Velha Profissão

Lauri Tähtinen

Alguns anos atrás, tive o mais temporário dos empregos. Durou apenas algumas horas, começando à tarde e terminando na madrugada da véspera de Natal. Para fazer o trabalho direito, era preciso usar um uniforme chamativo, ir de casa em casa, exibir um sorriso tranquilizador e permanecer sóbrio, apesar das constantes ofertas de bebidas fortes e quentes.

Fiz isso na Finlândia, a terra do Papai Noel, tema levado a sério para finlandeses jovens e velhos, e por muitas agências de publicidade. Contudo, a crença é mais antiga que os cartazes de turismo. Muito antes de turistas estrangeiros começarem a chegar no parque de diversões Santa Claus Village, no Círculo Polar Ártico, na Lapônia, aos pequenos finlandeses já era ensinados que Papai Noel vem de Korvatunturi, ou “Colina da Orelha” (Ear Fell). Por definição, uma colina é um “pico” ou um terreno montanhoso, e a “Colina da Orelha” consiste em três “picos” separados, dois dos quais se assemelham a orelhas. Com a ajuda de seus aparelhos auditivos topográficos, o Papai Noel sabia dizer se as crianças finlandesas tinham sido desobedientes ou boazinhas.

Assim afirmava Tio Markus – uma voz popular na rádio nacional da Finlândia durante a primeira metade do século XX – em seu programa “A Hora da Criança”, em 1927. Na época, Korvatunturi era ainda território completamente finlandês, mas, em função da Segunda Guerra Mundial, a nova fronteira o cortou pela metade. Uma das “orelha” foi deixada na Finlândia, enquanto a outra pode ter sido cooptada pela vasta rede de aparatos de vigilância Soviéticos. Nós simplesmente não sabemos. O que sabemos é que em 2011 Korvatunturi permanecia dentro da zona entre a Finlândia e a Rússia, com a fronteira correndo para a direita através do pico do meio. Considerada a geopolítica, a realocação de Papai Noel pode ter sido mais do que bom senso econômico.

Como ele teria encarado esta realocação forçada? A resposta depende de qual Papai Noel você tem em mente. O Papai Noel original finlandês, ou “Joulupukki”, não era muito alto astral. Ele era um homem grosseiro, um nômade que entrava na casa das pessoas sem ser convidado, esperando ganhar sua cota de delícias natalinas. Este Papai Noel malcriado, ou pelo menos uma versão particularmente ácida dele, foi recentemente ressuscitado por “Rare Exports: A Christmas Tale” (2010), um filme de conto de fadas visivelmente carente de fadas ou qualquer coisa que lembrasse o lado ensolarado da vida.

Hoje, esta antiga visão do vagabundo errante misturou-se a do Papai Noel Coca-Cola de roupa vermelha. Mas mesmo esse sujeito bonachão é mais finlandês do que aparenta. Haddon “Ensolarado” Sundblom, o homem que passou décadas produzindo imagens artesanais de Papai Noel para a Coca-Cola, não só tinha um nome que combinava com sua mais famosa criação como também era filho de imigrantes finlandeses que falavam sueco. Talvez o Papai Noel finlandês moderno seja uma mistura do calor dos arquipélagos – de onde veio o “Sr. Sundblom” – e as duras realidades da fronteira norte de Korvatunturi. A característica essencial tanto da lenda quanto de suas expressões contemporâneas é a mobilidade.

Anualmente, milhares de homens finlandeses (sim, esta é uma profissão com pouca equidade de gênero) vestem-se de vermelho, conduzem trenós que mais parecem veículos do século XXI e procuram visitar tantas casas quantas forem humanamente possíveis — frequentemente uma dúzia –, durante as cinco ou seis horas que lhes são atribuídas. Muitos trabalham pelo dinheiro, que é extraordinariamente bom neste que é o mais famoso dos feriados. Alguns fazem simplesmente por diversão e, acreditem, não há nada que desperte mais o espírito festivo do que uma roupa vermelha e uma barba branca. Para outros, é simplesmente uma forma de troca na qual os vizinhos se revezam para visitar as famílias uns dos outros.

A onipresença de Papai Noel não poderia deixar de imprimir sua marca na cultura. Na Finlândia, deixar o filho acreditar em Papai Noel até quase a adolescência é uma questão de orgulho para os pais. Entre os finlandeses jovens, há um sentimento generalizado de que ainda que o homem a visitar sua família seja uma imitação, o verdadeiro Papai Noel está em algum lugar. Afinal, por que haveria tantas imitações, se o original não existisse de verdade. Bem, até minha mãe ainda diz acreditar em Papai Noel; e como a maioria das declarações de fé, trata-se principalmente de uma alegação imperativa. Talvez por isso Papai Noel visita a nossa casa – sem falta – a cada ano.

A profissão de Papai Noel é inerentemente invasiva. Os “Papais Noéis” finlandeses podem até ser convidados a entrar, em vez de invadirem casas à noite, mas ainda ocupam espaço emocional no auge das celebrações de Natal. E alguns profissionais conseguem obter informações pelas quais cientistas sociais matariam.

Por detrás da falsa barba, você pode observar quanta diversidade, mesmo um país homogêneo e igualitário como a Finlândia, contém. Você encontra mães solteiras e seus filhos únicos, famílias que estão claramente comemorando seu último Natal juntas, e também famílias grandes e unidas, dispostas a cantar e dançar com o Papai Noel, como manda a tradição. O papel de Papai Noel pode variar, desde obvia e simplesmente entregar presentes para as crianças, permitindo que seus pais possam continuar suas vidinhas, até fornecer um ponto central para toda a celebração. Na melhor das hipóteses, ele permite que o arcaico, por um momento fugaz, possa ultrapassar a desilusão.

Deve-se dizer que o Natal finlandês não é todo sobre Papai Noel. Como em qualquer lugar, existem comidas e canções de Natal, que só aparecem uma vez por ano. No entanto, independentemente de suas muitas raízes transnacionais, tais tradições são atualmente bastante locais ou, conforme o caso, nacionais. Por outro lado, a batalha pelo Papai Noel é global, com muito orgulho nacional e turismo em jogo.

Não trabalho para o Conselho de Turismo da Finlândia. Contudo não posso deixar de sugerir um roteiro. Talvez, quando estiver se preparando para o próximo Natal, você consiga uma permissão especial para visitar Korvatunturi, contratar um guarda de fronteira finlandesa como guia e caminhar até o seu topo. Quem sabe o quê, ou quem, você pode encontrar. Em todo caso, tomara que a lenda difundida pela Coca-Cola esteja certa.

Ou caso esteja longe demais, simplesmente importe você mesmo um pequeno pedaço da Finlândia. Compre uma túnica vermelha, uma barba branca, e talvez um travesseiro ou dois, caso você não seja naturalmente gordinho. Vista-se e ofereça seus serviços para amigos e familiares. A reação pode lhe surpreender.

Tradução: Antonio Engelke.

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Publicado em 30/12/2011 por em Memórias, Mundo.

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